Em um episódio especial que marcou o encerramento da temporada do programa Psico em Foco, transmitido pela WebTV Triângulo, os papéis se inverteram na bancada. O acadêmico de Psicologia Kelsio, que esteve como parceiro de bancada ao longo de dezenas de entrevistas ao lado da professora e psicóloga Fernanda Cubas , sentou-se na cadeira de entrevistado para partilhar sua própria trajetória de vida, desafios e reencontros vocacionais.
Prestes a colar grau no curso de Psicologia pela instituição universitária local, Kélsio compartilhou uma caminhada marcada pela superação do vício na adolescência, 13 anos dedicados à vida religiosa consagrada, docência com jovens e o chamado definitivo para o acolhimento clínico e a abordagem humanista.
Resgate na adolescência e a missão de rua
A busca por propósito começou cedo. Aos 16 anos, após vivenciar o drama da dependência química na juventude, Kélsio passou por um processo de internação e acolhimento na Fazenda Stella Maris, em Uberlândia (MG). A experiência de recuperação gerou uma virada profunda em sua vida pessoal.
“Eu fiz literalmente coisas que poderiam ter me levado à morte. Quando fui resgatado com vida, entendi que se Deus me poupou, havia algo maior para mim”, recordou.
Essa virada impulsionou sua entrada no trabalho social e religioso. Em Ituiutaba e em diversas cidades brasileiras — por meio de iniciativas como a Toca de Assis e grupos juvenis —, ele dedicou cinco anos cuidando diretamente de pessoas em situação de vulnerabilidade, limpando feridas e dividindo refeições nas madrugadas.
Kélcio relembrou a marcante noite em que, de bicicleta na antiga rodoviária de Ituiutaba, decidiu parar para conversar com moradores em situação de rua: “Quando cheguei e entreguei meu lanche, a primeira frase que escutei foi: ‘estávamos te esperando’. Saí dali muito mais alimentado por dentro do que se tivesse apenas comido um sanduíche”.
Da filosofia ao divã: a busca pelo sentido
Durante 13 anos na vida religiosa, concluiu a graduação em Filosofia em Juiz de Fora (MG) e cursou dois anos de Teologia. Contudo, ao notar que o ambiente institucional já não dialogava com a leveza e a paz interior que buscava, tomou a decisão de deixar o hábito com o apoio de acompanhamento psicoterapêutico.
A partir de 2015, ingressou na docência lecionando para adolescentes — carreira que já soma 11 anos de sala de aula. Uma experiência familiar durante a pandemia, ao cuidar de perto do irmão internado com Covid-19, provocou uma reflexão técnica que o fez ingressar na faculdade, inicialmente na Enfermagem. Pouco tempo depois, contudo, percebeu que o verdadeiro campo de sua vocação estava na escuta psíquica e transferiu-se para o curso de Psicologia.
Na graduação, identificou-se profundamente com a Abordagem Centrada na Pessoa (Humanismo), inspirada em Carl Rogers. Ele destacou o impacto transformador da própria terapia no período em que viveu na Zona da Mata mineira, quando foi atendido por uma terapeuta de referência que havia conhecido Rogers pessoalmente.
Escuta clínica e o poder da arte
Ao refletir sobre os estágios finais na clínica-escola, Kélcio enfatizou que o papel do psicólogo não é mudar a pessoa, mas ser uma presença autêntica, segura e disponível para que o próprio paciente construa sua autonomia.
“Nós não mudamos o outro, mas somos um caminho técnico que pode colaborar para a evolução dele. Estar ali com escuta atenta e olhar no olho, acolhendo a dor e a história sem julgamento, é o que torna a Psicologia apaixonante”, observou o estudante, mencionando o retorno positivo recente de pacientes atendidos ao longo de 12 sessões.
Durante o bate-papo, ele também pegou o violão para cantar uma composição autoral nascida em um momento pessoal difícil: “Minha história é um tesouro, que do velho tudo se faz novo… posso amar, posso perdoar, posso acolher, posso fazer o céu acontecer”.
A apresentadora Fernanda lembrou que essa mesma sensibilidade com a música foi levada por eles em ações sociais de prevenção ao suicídio dentro do sistema prisional e de recuperação (APAC), onde a canção serviu como ponte de esperança entre celas fechadas e pessoas que há anos não ouviam um instrumento musical.
Despedida e novos horizontes
Celebrando a conclusão dos quatro anos de curso e a convivência semanal nos estúdios da WebTV Triângulo, a dupla ressaltou a responsabilidade ética do psicólogo diante da sociedade em uma era dominada por likes e exposições superficiais em redes sociais.
Com o encerramento do semestre letivo e das gravações dessa temporada, o Psico em Foco entra em breve recesso de férias e já prepara novos episódios e temporadas temáticas para o segundo semestre de 2026.
O episódio de encerramento da temporada do ‘Psico em Foco’ pode ser assistido na íntegra no YouTube da WebTV Triângulo:
